Campanha Gaúcha: conheça mais sobre a nova Indicação de Procedência (IP) de vinhos do Brasil

No último dia 05 de maio, a região da Campanha Gaúcha conquistou, oficialmente, a sua Indicação de Procedência (IP) para vinhos finos tranquilos e espumantes. A concessão dessa modalidade de Indicação Geográfica foi solicitada ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) pela Associação dos Produtores de Vinhos Finos da Campanha.

O processo contou com cerca de cinco anos de pesquisa científica liderada pela Embrapa Uva e Vinho, em conjunto com várias outras entidades, que estudou e discutiu o zoneamento da região, as características de solo e clima, além das variedades viníferas cultivadas, entre outros pontos. O resultado pode ser atestado na taça, pois o selo garante que o vinho daquela garrafa expressa as características da região na qual foi produzido.

A REGIÃO – Situada entre os paralelos 29° e 32° de Latitude Sul, mesma faixa de zonas vitivinícolas mundiais conhecidas como Chile, Argentina, Uruguai, África do Sul, Nova Zelândia e Austrália, a Campanha Gaúcha é hoje a 2ª maior região produtora de uva e vinhos do Brasil. Elabora, atualmente, 31% dos vinhos finos do Brasil (a Serra Gaúcha fica em primeiro lugar, com 59% da produção nacional).

A Campanha faz fronteira com a Argentina e o Uruguai, sendo contornada pelas regiões da Serra do Sudeste, Missões e Depressão Central. A altitude local varia entre 100 e 300 metros, o que facilita a mecanização das colheitas. O frio é rigoroso no inverno e os verões são quentes. Já as chuvas são pouco frequentes. Ou seja, o clima é ideal para produzir vinhos finos de qualidade.

Outros destaques locais são as produções, em larga escala, de trigo, arroz e soja, bem como a silvicultura.

UVAS E VINHOS – Os tipos de vinhos finos contemplados na IP Campanha Gaúcha são os espumantes naturais e os vinhos tranquilos brancos, rosés e tintos, exclusivamente elaborados a partir de cultivares de Vitis vinifera.

A produção de uvas deve ocorrer apenas na área delimitada (são 44.365 km2), atendendo a limites máximos de produtividade por hectare. Os vinhedos são conduzidos em espaldeira e as uvas têm que atingir padrões de qualidade para poder seguir para vinificação. Além disso, os vinhos devem ser aprovados às cegas por uma comissão de degustação.

São 36 as variedades produzidas na região:

Alvarinho, Ancelotta, Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon, Chardonnay, Chenin Blanc, Gewürztraminer, Malbec, Marselan, Merlot, Petit Verdot, Pinot Grigio, Pinot Noir, Riesling Itálico, Riesling Renano, Ruby Cabernet, Sauvignon Blanc, Syrah, Tannat, Tempranillo, Touriga Nacional e Trebbiano.

De acordo com Mauro Celso Zanus, pesquisador da Embrapa responsável pela caracterização sensorial dos vinhos da Campanha Gaúcha, os rótulos locais trazem as seguintes características:

– Os vinhos espumantes apresentam coloração clara ou rosé, são leves, delicados, frescos, de acidez moderada e fáceis de beber.

– Os vinhos rosés têm um matiz vermelho-claro ou salmão, são sutilmente frutados, delicados, mas com boa persistência de paladar.

– Os vinhos brancos têm predominantemente um matiz palha ou amarelo-claro. Os aromas são finos, variam conforme o caráter de cada uva: varietal Pinot Grigio (notas de pera), Riesling (notas cítricas), Chardonnay (notas de abacaxi), Sauvignon Blanc (notas tropicais e sutil vegetal) e Gewurztraminer (notas de lichia e rosas). A madeira (carvalho) não é muito presente, para ressaltar os aromas da fruta. No paladar são vinhos leves, embora o Chardonnay, muitas vezes – conforme o estilo buscado pela vinícola, possa ser mais encorpado, volumoso e intenso. Quase todos têm uma moderada acidez – devido às noites quentes de verão, com um bom equilíbrio de sabor. São vinhos predominantemente jovens e fáceis de beber.

– Os vinhos tintos também são variados, conforme as uvas empregadas. Predominam aqueles de cor com matiz vivo, rubi-claro, olfato de média intensidade, com notas de frutas maduras, variando do frutado intenso no Tempranillo e Merlot, cassis no Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc, para as notas mais complexas de menta e especiarias no Tannat, que também pode participar de cortes com as castas tintas. No sabor os vinhos são macios, com acidez moderada, bom corpo e volume. Destaca-se nos tintos o varietal Tannat, uva que amadurece por completo e parece ter encontrado excelente adaptação, originando um vinho de coloração intensa, com boa estrutura, de taninos e de acidez, macio e potente, podendo, inclusive, ser envelhecido por mais tempo, quando adquire elevada complexidade de sabor.

VINÍCOLAS – São 18 vinícolas instaladas na região da Campanha. De acordo com Giovâni Peres, presidente da Associação entre 2014 e 2016 e sócio-proprietário da vinícola Batalha, um diferencial da região é o trabalho em conjunto. Algumas marcas, por exemplo, possuem apenas plantações e vinificam suas uvas em adegas dos parceiros. Em relação ao enoturismo, algumas vinícolas já recebem o público visitante e outras vêm se estruturando para tal. A perspectiva, segundo Giovani, é que no período pós-pandemia esse setor seja bastante incrementado.

Conheça as marcas que estão na região:

  • Batalha
  • Bueno Wines
  • Campos de Cima
  • Cerros de Gaya
  • Cordilheira de Santana
  • Dom Pedrito
  • Dunamis
  • Guatambu
  • Miolo Wine Group
  • Nova Aliança
  • Paraizo
  • Peruzzo
  • Pueblo Pampeiro
  • Routhier & Darricarrere
  • Salton
  • Sossego
  • Vinhetica

OUTRAS INDICAÇÕES – Além da IP Campanha Gaúcha, no Brasil, as Indicações Geográficas já registradas são as seguintes:

Rio Grande do Sul:

  • IP Altos Montes
  • IP Pinto Bandeira
  • IP Monte Belo
  • DO Vale dos Vinhedos
  • IP Farroupilha

Santa Catarina:

  • IP Vales da Uva Goethe

Além dessas, estão em estruturação as seguintes IGs:

  • Vale do São Francisco (Pernambuco/Bahia)
  • Vinhos de Altitude (Santa Catarina)
  • Altos de Pinto Bandeira (Rio Grande do Sul)

EXPERIÊNCIA – Tive a oportunidade de conhecer a região da Campanha Gaúcha em 2013, junto ao Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), visitando várias vinícolas e degustando produtos de outras tantas. Me impressionou desde aquela época a boa qualidade dos vinhos e espumantes locais. Confesso que de início acreditava que a Tannat era a grande uva da região. Mas esse mito foi logo desfeito após “mergulhar” no universo local. Sim, a Campanha Gaúcha tem excelentes Tannats, mas também tem muita coisa boa a se descobrir.

Esta semana, participei de uma excelente degustação online guiada, promovida pela empresa Winext junto com Associação dos Produtores de Vinhos Finos da Campanha e as vinícolas Bodega Sossego, Bueno Wines, Cerros de Gaya, Dunamis, Estancia Paraizo e Salton. As minhas impressões dos vinhos provados vão ser publicadas aqui, em breve, e no Instagram @escrivinhos.

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